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segunda-feira, julho 19, 2010

Trilho da Peneda (PNPG - Arcos de Valdevez), dia 24 de Julho de 2010

Trilho da Peneda

Serra da Peneda - Arcos de Valdevez (Santuário da Srª da Peneda)


24 de Julho de 2010


Organização: grupo de caminhadas do blogue "Pedestrianismo e Percursos Pedestres"


Local: Serra da Peneda - concelho de Arcos de Valdevez
Local de concentração e inicio do percurso: Largo do Santuário da Srª da Peneda
Hora de encontro: 10h15
Hora de Partida: 10h30
Distância a percorrer: 9 km
Grau de dificuldade: moderado-elevado
Tipo de percurso: circular

Material necessário/recomendado: botas de montanha, bastões, roupa adequada a caminhar no campo/natureza e à meteorologia do dia
Pontos de interesse.: Santuário da Senhora da Peneda, Fraga da Meadinha, Branda da Bouça dos Homens, lago, aldeia da Peneda.

Inscrições gratuitas (não incluem seguro, transporte e almoço, devendo os participantes levar almoço volante):

Inscrições em formulário online - (clicar para aceder)



Roteiro do Percurso
Este percurso realiza-se entre dois povoados serranos: a aldeia da Peneda e a Branda que por ela é gerida: Branda da Bouça dos Homens.
Partindo do imponente Santuário da Senhora da Peneda dirigimo-nos ao parque de estacionamento de autocarros, localizado a cerca de 1 km. Ascendemos então por um íngreme carreteiro por onde antes passavam os carros de bois barrosões, que ligavam aqueles dois povoados.

Santuário da Senhora da Peneda

Cerca de três quilómetros adiante atinge-se o ponto mas alto do percurso, no lugar de Portas (cerca de 1120 m.). Pouco depois atravessa-se uma estrada alcatroada e seguimos por um caminho até à Branda da Bouça dos Homens, que merece uma visita atenta. Esta branda é considerada a mais importante e de maior dimensão da Peneda-Gerês.

Branda da Bouça dos Homens

Deixámos para trás esta Branda e por momentos seguimos uma estrada alcatroada até um antigo caminho (pé-posto) de romeiros devotos à imagem da Senhora da Peneda. Uma ligeira subida de 2 quilómetros até à Penameda (1215 metros), ao que se segue uma pequena descida até a um pequeno lago artificial, conhecido na região como Pântano, localizado no lugar de Chã do Monte. Trata-se de uma represa que servia uma mini-hídrica que até à meados da década de 80 fornecia a energia eléctrica à aldeia da Peneda.

Lago

Cruzando o lago, seguimos um regato e a descida até ao Santuário da Peneda revela-se muito pronunciada. No horizonte destaca-se, do lado esquerdo, a Fraga da Meadinha, reputado local de escalada com dezenas de vias, dos mais variados graus.

Largo do Santuário da Senhora da Peneda com a Fraga da Meadinha ao fundo
(esta foto foi cedida pela "Rota dos Vinhos Verdes")


Mapa do Percurso

[percurso a linha a linha vermelha tracejada]
(clicar no mapa para ampliar)









Contactos:
blogue "Pedestrianismo e Percursos Pedestres"
http://pedestrianismo.blogspot.com
Tlm.. 96 5683938 ; 91 4279361 ; 93 3872245
email: pedestrianismo@gmail.com

Inscrições gratuitas (não inclui transporte, seguro e alimentação, que fica à mercê dos participantes - possibilidade de troca de boleias), não obrigatórias mas conveniente de serem efectuadas para melhor ajuste à actividade.




Este "Trilho da Peneda" insere-se no Ciclo de caminhadas "Pelo caminhos do noroeste português" 2009/2010. Neste ciclo de caminhadas são percorridas diversas áreas naturais e rurais do noroeste português (Minho e distritos do Porto e Aveiro) calcorreando uma miríade de paisagens destas regiões bem como contactando in loco com o seu património de índole diversa: natural, ecológico, biológico, rural, etnográfico, arquitectónico, histórico e sócio-cultural.


Link do Ciclo de Caminhadas:


Clicar para ampliar

quarta-feira, outubro 21, 2009

Novo Plano de Ordenamento do Território do Parque Nacional Peneda-Gerês em discussão pública até 2 de Dezembro

Arranca hoje, 21 de Outubro, e prolonga-se até 2 de Dezembro a discussão pública à proposta de novo Plano de Ordenamento do Parque Nacional Peneda-Gerês (PNPG) . O documento teve o contributo de 17 entidades e substituirá o plano de 1995.

A proposta do novo plano de ordenamento do PNPG que hoje entra em discussão pública segundo o director do Departamento de Áreas Classificadas do Norte, Lagido Domingos «apresenta mudanças significativas, procurando uma melhor adaptação à realidade» exemplificando com «o caso das zonas de protecção total que o anterior plano interditava a visitação e agora as permite».

Na elaboração do documento foram «usadas ferramentas informáticas que permitem o melhor conhecimento do território. Queremos pensar na forma como gerir o território, antes de termos que o gerir. Fizemos avaliação dos estrangulamentos e das potencialidades».

Para tal foi criada uma comissão científica que contribuiu para a acção da comissão mista que, numa primeira instância, «elaborou uma carta de ordenamento (com particular atenção à defesa dos valores naturais e sem esquecer os usos) virada para o século XXI e com preocupações das populações que habitam o parque».

No novo plano «há espaço para a micro-geração, na área das energias limpas, mas as eólicas e mini-hídricas ficam de fora» refere o director. Quanto à integração na rede das áreas naturais mais importantes na Europa, PAN Parks, Lagido Domingos salientou que "o Parque Peneda-Gerês é o que é com as suas gentes. Não vamos fazer um fato à medida do PAN Parks»

«O pastoreio em zona de rede natural poderia inviabilizar, mas o plano prevê o pastoreio em moldes tradicionais, indo até à zona de protecção total, inclusive. O pastoreio tradicional tem regras, organizadas pelos compartes dos baldios» acrescenta o director.

«Queremos retirar o demasiado peso da administração do parque que, em certas situações, era sufocante na vida das pessoas. Qualquer construção carecia de parecer», sintetiza Lagido Domingos - «agora, os núcleos urbanos passam a ser da responsabilidade das autarquias, cujos PDM já devem incorporar essa lógica. A excepção aplica-se aos núcleos acima dos 900 metros de altitude.»

As sessões públicas de esclarecimento decorrem em Novembro no:
  • dia 11 em Montalegre (às 18 horas na Sala Multiusos)
  • dia 12 em Ponte da Barca (às 18 horas no Auditório Municipal)
  • dia 18 em Terras de Bouro (às 18 horas no Centro de Animação Termal da vila do Gerês)
  • dia 20 em Melgaço (às 18 horas na Porta do PNPG de Lamas de Mouro)
  • dia 25 em Arcos de Valdevez (às 18 horas no Auditório do Centro Municipal de Informação e Turismo)

A proposta do novo Plano de Ordenamento do Território do PNPG pode ser entretanto consultado na ICNB na sede nacional em Lisboa, no "Departamento de Gestão de Áreas Classificadas do Nortee" em Braga, no Centro de Educação Ambiental do Vidoeiro (vila do Gerês), na CCDR-N, nas respectivas câmaras e juntas de freguesia.



Adaptado de Jornal de Notícias - 21-10-2009

terça-feira, maio 26, 2009

Parque Transfronteiriço Gerês/Xurés e a ilha das Flores (Açores) são Reserva Mundial da Bioesfera , da UNESCO


O Parque Transfronteiriço de Gerês/Xurés foi criado em 1997 entre o Parque Nacional da Peneda-Gerês e do Xurês/Baixo Límia, na Galiza, Espanha, «para fomentar o estabelecimento de normas e medidas similares ou complementares para a defesa, preservação e conservação dos valores naturais de ambos os parques».

A candidatura foi entregue em Abril de 2008, na Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), em Paris, pelos Governos de Portugal e de Espanha.

O anúncio da candidatura foi feito em Fevereiro de 2008 durante a Cimeira Ibérica de Braga, ocasião em que, em declarações à Agência Lusa, o ministro do Ambiente, Nunes Correia, revelou que o tema estava na agenda da Cimeira Ibérica, adiantando que o trabalho preparatório estava a ser feito por uma comissão mista criada, em 2007, em Terras de Bouro.

A comissão englobou técnicos do Governo da Xunta da Galiza, representantes dos municípios da zona, dos dois parques naturais e da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento da Região Norte.

Nunes Correia assinalou que a candidatura aproveitava, também, o trabalho conjunto desenvolvido, na última década, pelos técnicos dos dois parques, o Nacional da Peneda-Gerês, em Portugal, e o Natural da Baixa Limia/Serra do Xurés.

E frisou que, entre outros aspectos, o projecto baseia-se no património biogenético e na recriação de trilhos antigos, nomeadamente os da Geira, a antiga estrada romana que ligava Braga e Astorga.

O Parque Internacional Gerês/Xurês actua especialmente nas zonas definidas pelos Planos de Ordenamento como sendo de 'Ambiente Natural' e 'Reserva' ou 'Protecção Especial', na linha da fronteira.

Promove projectos e acções conjuntas de cooperação e intercâmbio de técnicos, populações rurais e escolares dos dois territórios, bem como o uso público e o turismo ecológico com oferta comum das infra-estruturas existentes em ambos os parques, apresentando ao visitante uma visão global do espaço protegido.

As duas estruturas fomentam, nas áreas declaradas como protegidas, políticas de desenvolvimento social, económico e cultural que desenvolvam e preservem os valores pratimoniais respectivos.

Para além da candidatura luso-espanhola à UNESCO, o município de Terras de Bouro, em parceria com municípios galegos, vai apresentar uma candidatura da antiga estrada romana, a Geira, a património europeu, logo que a União Europeia (EU) institua o galardão.

Este projecto conta com a cooperação das universidades do Minho e de Santiago de Compostela, os municípios de Amares e Lugo (Galiza) e os Parques Nacional da Peneda-Gerês e do Xurês Baixo Límia.

A Geira, a via que ligava Braga (Bracara Augusta) a Astorga (Asturica Augusta), na Galiza, atravessava o concelho de Terras de Bouro em 30 quilómetros, depois de passagens por Braga, Póvoa de Lanhoso, Amares e Vieira do Minho.



Quanto à ilha das Flores, distinguida também pela UNESCO como reserva mundial da bioesfera, situa-se no Grupo Ocidental do arquipélago dos Açores, sendo considerada como o ponto mais ocidental da Europa (fora do Continente Europeu).

Ocupa uma área de 141,7 km2, na sua maior parte constituída por terreno montanhoso, caracterizado por ravinas e falésias.

A ilha das Flores é considerada uma das mais belas dos Açores, cobrindo-se no Verão de milhares de hortênsias de cor azul, que dividem os campos ao longo das estradas, nas margens das ribeiras e lagoas.

Fonte: jornal Sol - 26-05-009

segunda-feira, março 31, 2008

Caminhada na Geira Romana de Sta Cruz a Campo de Gerês, dia 6 de Abril, organizada pelo "Um Par de Botas" e Associação de Antigos Estudantes da UMinho

Caminhada da Geira Romana
Parte 1: Sta Cruz - Campo de Gerês

6 de Abril de 2008

Terras de Bouro - Gerês


Ponto de encontro: Pastelaria Montalegrense (Rua Nova de St Cruz - Braga) às 08h30

Clicar para ampliar


Extensão: 21 km
Percurso Linear
Duração: cera de 6h30
Cota máximo: 628 metros (Campo do Gerês)
Cota mínima: 418 metros (Sta Cruz)
O percurso será realizado na companhia do arqueólogo Ricardo Silva


Inscrições e informações:
aaeum.sec@gmail.com
Tls. 965425540; 914677791; 933218331



Fonte do texto e imagem: Clube "Um Par de Botas" e "Associação de Antigos Estudantes da Universidade do Minho" (AAEUM)"

domingo, fevereiro 24, 2008

Excessiva cosmética e marketing na gestão e preservação das áreas protegidas


No domingo do fim-de-semana passado um grupo de caminhadas intentou fazer uma caminhada, com a presença de algumas dezenas de caminheiros, desde a Portela do Homem aos Carris, na Serra do Gerês. Pouco depois da saida da Portela do Homem foram impedidos por um guarda florestal, que se fazia acompanhar de guardas da GNR, de realizar tal caminhada pelo vale do Rio Homem acima. Curiosamente um dia antes, no Sábado, um outro de grupo de caminhadas, em número afim ao do grupo de Domingo, efectuou também a subida aos Carris, mas não foi impedido de o fazer. Será que os guardas florestais do PNPG e os da GNR fazem folgas aos Sábado?

No PNPG existem 3 níveis de protecção dos espaços naturais: integral, parcial e complementar. Nas áreas de protecção integral e parcial não se pode realizar actividades de montanhismo. Já as caminhadas (o pedestrianismo) podem ser efectuadas por caminhos 'bem' definidos em àreas de protecção parcial, mas não integral. O caminho de subida às minas de Carris a partir da Portela do Homem, uma ascensão dos 800 metros aos 1450 metros, é praticamente toda efectuada em área de protecção parcial, contudo numa ínfima parte é de protecção integral. Essa ínfima parte de protecção integral está prevista passar a área de protecção parcial há já alguns anos o que será concretizado no próximo plano de ordenamento do PNPG. As direcções do PNPG afirmaram, em várias ocasiões, ser quase absurdo não se poder efectuar o percurso da Portela aos Carris, apenas por esse facto.
Então, também não será absurdo guardas do PNPG impedirem que grupos realizem o caminho dos Carris, quando eles são os primeiros a defender que se possa fazer tal caminho? Não se pode ter um discurso teórico oposto à prática.
O que se continua a observar é que quem andar pelo Gerês fora dos caminhos e estradões, por áreas de protecção parcial ou integral pode andar descansado que não será ´incomodado' pelo guardas; já quem seguir por caminhos bem definidos como o caminho do Carris, é provável ser impedido de tal. Obviamente, este facto imbrica deveras com o escasso número de guardas do PNPG, mas a sua 'justificação' não se pode refugiar somente nesta limitação.

Sabemos que o pedestrianismo privilegia a passagem por caminhos já traçados, existentes, e o montanhismo segue sobretudo pelo pé-posto, até 'pelo corta-mato', e deste modo será, à partida, mais nocivo aos espaços naturais, até pelo realização de dormidas na serra (embora o pedestrianismo comporte, regra geral, grupos mais numerosos). Regular com princípios e regras muito bem definidas (e não só o habitué "aqui é permitido " e "aqui é proibido"), as actividades de pedestrianismo nas serras portuguesas é tarefa menos complexa que as relativas às actividades de montanhismo. É pertinente fazê-lo, até pela crescente adesão de participantes, que se tem registado nos últimos anos.




Bem mas mais curioso foi constatar que também no mesmo fim-de-semana (o passado), realizou-se na Serra da Estrela, no Covão de Ametade, um encontro de motards (Eskimós 2008), em que foi montada quase uma (espécie de) cidade ambulante neste local protegido, situado a 1450 metros (curiosamente a mesma altitude dos Carris, nos Gerês).

O Covão de Ametade é uma área de especial interesse na Serra da Estrela. Este Covão é um antigo circo glaciar, o maior da S. da Estrela, que na última glaciação (Würm, há cerca de 20 mil anos) atingia os 300 metros de espessura de gelo (ou seja o seu limite superior do gelo rondava os 1800 metros [tendo em conta a contínua abrasão inferior]). A língua glaciar prolongava-se pelo Vale do Zêzere ao longo de 13 km (uma das maiores da Europa). Na actualidade, o Covão de Ametade integra o Parque Natural da Serra da Estrela, o Sítio Rede Natura 2000 e a Reserva Biogenética Serra da Estrela. A nível paisagístico é um dos cartões de visita de Serra, até pelos vistas dos Cântaros em redor e da nascente do Zêzere, e conserva uma belo coberto florestal de bétulas. O Covão d'Ametade não se restringe ao seu sopé, a 1450 metros, mas estende-se por andares/patamares de altitude até perto dos 1900 metros. Lugares de altitude superior a 1550 metros só existem em Portugal continental na Serra da Estrela, e deste modo, só por este facto, alberga uma flora e fauna singular, bem como todo o seu composto mineral.
O Covão de Ametade é inatamente uma aprazível área de recreio pelas condições naturais que apresenta: extensa zona aplanada, mais abrigada de ventanias, de boa acessibilidade ao longo do ano e como tal é umas das eleitas 'antecâmaras' de recreio, relativamente ao planalto superior da Torre. Não possui um grau de protecção como o da zona do planalto da Torre, por ser vista pela direcção do Parque, numa perspectiva redutora (porventura por manifesto interesse) apenas quase ao nível da sua base, a 1450 metros.

O evento do passado fim-de-semana que aí se realizou revelou-se manifestamente excessivo e mesmo nocivo para esta zona. Com a presença de 300 participantes, foram montadas tendas gigantes, de campanha, aquecidas para servirem como espaço de convívio e refeitório, barracas de comes e bebes e de venda de souvenirs, geradores eléctricos; houve muita iluminação (de noite e de dia), muito som, duches quentes, foram feitos diversos fogos de campo em locais diversos do Covão. Por outro lado, centenas de viaturas motorizadas (motos, carros, carrinhas, camiões) circularam e aparcaram sobre o coberto vegetal. Em suma, uma 'cidade ambulante', para conforto dos participantes.

De evidenciar que a realização de este evento foi aprovado pelos serviços do Parque Natural da Serra da Estrela (PNSE) e, de acordo com os organizadores, recebeu colaboração de técnicos do parque para a ‘preparação’ do local.


Mais do que as palavras ficam as fotos.

Fotos do evento "Eskimós 2008", do blogue "Máfia da Cova":

Vista, ao fundo, do Cântaro Magro (1927 m)








Esta duas situações ocorridas no fim-de-semana anterior nos dois principais Parques do país (PNPG e PNSE), e que descrevi acima, evidenciam que a gestão e preservação das áreas protegidas em Portugal continua a ser muito mais parecença que essência, e isto não tanto por responsabilidade dos técnicos (e funcionários dos parques), mas sobretudo dos gestores e políticos portugueses.



Nota: as informações sobre o evento "Eskimós 2008" foram recolhidas no blogue "O Cântaro Zangado"

quinta-feira, agosto 02, 2007

A última Águia-real do Parque Nacional da Peneda-Gerês

"O jipe sobe lento a encosta da serra da Peneda, o conta quilómetros chega a fixar-se no 10. Para trás ficou a última aldeia. Rumamos ao Ramiscal [Serra do Soajo], o veículo terá de ficar para trás. Faz-se a pé o caminho, a descer por um vale escarpado. Percurso que Miguel Dantas da Gama conhece bem. Há anos, ao fim-de-semana, manhã cedo, deixa o Porto em direcção a Arcos de Valdevez para, no coração da natureza, continuar uma devoção antiga: observar a última águia real.

A enorme ave solitária tem o seu refúgio no vale do Ramiscal, uma das zonas mais sensíveis do Parque Nacional da Peneda-Gerês (PNPG). É nessa zona, devastada pelas chamas no ano passado, que Miguel concentra a observação na rainha das aves de rapina.

Em Agosto de 2003 viu-a pela última vez acompanhada pelo macho. Desde aí, o investigador segue a vida da última águia-real do PNPG. Viu-a fazer ninho pela última vez, viu os ovos que ela já não conseguiu chocar. E persiste. Os poucos habitantes do parque, que habituaram a cruzar-se com o ambientalista nos sítios menos previsíveis, chamam-lhe "o rapaz da águia".

As peregrinações, quase sempre solitárias, passaram a ter um objectivo definido: a publicação de um livro sobre a última águia do Gerês, acompanhado de um DVD, onde estão registados os derradeiros voos. Em casa, guarda já 27 cassetes de uma hora cada. O próximo passo é editar os filmes e fazer um vídeo com as melhores imagens.

Este ambientalista, fundador da Quercus e mais tarde do Fundo para a Protecção dos Animais Selvagens (FAPAS), licenciado em Engenharia Electrotécnica, acompanha, ao longo da semana, projectos de grandes barragens numa multinacional. Sempre a pensar no sábado, no recôndito Ramiscal. Vai ao ginásio, três vezes por semana, porque seguir o voo da águia exige um enorme esforço físico. Subir e descer montes, andar quilómetros pela montanha pressupõe preparação.

Aos 48 anos, Miguel Dantas da Gama, descendente do romancista Arnaldo Gama, reconhece que a paixão pelo Gerês começou quando em criança os pais o levavam a passear por lá. Há 30 anos, de forma sistemática, percorre o parque nacional, e é, seguramente, um dos que melhor conhecem esta paisagem protegida. Já publicou em livro trabalhos sobre a cabra e o galo montês do Gerês e sobre o pinheiro silvestre, uma espécie autóctone do PNPG.

Sustos? "Já apanhei alguns", reconhece, embora nada que fizesse arrefecer o amor pela natureza. Um dia, a escalar um penhasco, colocou a mão a escassos centímetros de uma víbora. Em caminhadas, que por vezes chegam aos 40 quilómetros, também já se viu "aflito": uma vez foi a tempestade que o encontrou, uma outra foi o excesso de calor. É por isso que no jipe tem sempre um chapéu, protector solar e água, além de botas de montanha, uns binóculos e a câmara de filmar.

Num quente sábado de Julho, o DN acompanha o ambientalista no passeio até ao Ramiscal. A observação faz-se num penhasco, a meia encosta, sobranceiro ao vale. Do lado de lá, a vegetação rasteira renasce depois do incêndio que destruiu um precioso carvalhal. "Fica verde e dizem, por isso, que está a regenerar, mas aquilo não são carvalhos", sublinha , referindo-se às declarações de responsáveis do Ministério do Ambiente que minimizam os efeitos do incêndio. Mais à frente existe a maior concentração de azevinho em Portugal, "alguns com dois metros de perímetro", destaca.

A conversa é interrompida. A observação exige silêncio. Há dias "via-a a rasar os ninhos dos falcões e dos gaviões. Ela deixava-os nervosos, obrigando-os a abandonar o ninho e a segui-la", recorda com um brilho nos olhos. Dantas da Gama tem consciência de que a vida da águia está a findar. "Quando morreu o macho, achei que ela ia durar um ano, mas tem dado que fazer", ironiza. Já 'viúva', ela continuava a levar paus para o ninho". Mas a sua águia cultiva a viuvez, de vez em quando outras aves de rapina sobrevoam o Ramiscal e "ela enxota-as".

A última águia não apareceu, terá pressentido a presença de estranhos, demasiado faladores. Quanto a Dantas da Gama, obrigámo-lo a cometer um pequeno sacrilégio: passou demasiado tempo de costas para o vale."

Paula Ferreira

Fonte: Diário de Noticías - 28-7-007



Consulta de Leitura afins:

Canto final da última águia-real no Gerês - DN - 22-05-005

A Rainha do Gerês - Expresso

A propósito dos incêndios na Serra do Soajo, no Verão de 2006, ver excelente descrição de Ventor